Vidas desinteressantes

Não é novidade para ninguém que o mundo parou. Muito do que nos era dado como garantido foi tirado. Tiraram-nos as festas, os eventos e convívios. As vidas interessantíssimas que se viam nas televisões e nas redes sociais não são mais interessantes.

Estava curioso quanto ao estilo de vida das ditas pessoas famosas durante a quarentena. Muitas delas que viajavam, estavam presentes em todos os eventos, davam e eram recebidas em festas, aceitavam trabalhos interessantíssimos. De um momento para outro, tudo mudou.

Mudou-se o estilo de vida do outdoor para o indoor. Dos fantásticos looks de gala para o pijama. Da vida social glamorosa para a vida íntima. Conhecemos o outro lado de muitas figuras públicas distantes. Tornaram-se mais humanas, mais reais. O medo de sair à rua tornou-se real e, com ele, o medo do esquecimento. O medo de não ser falado, de não estar mais “in”, de não poder aparecer e ser reconhecido.

Decidi atualizar-me em relação às notícias rosa. Até elas bem desinteressantes neste momento. Nas capas já não se falam de traições ou separações, o que me leva a ponderar: ou os traidores têm de permanecer em casa com os conjugues, ou então deixaram de trair com medo do vírus. Acho que não me cabe a mim analisar, talvez aos comentadores do Passadeira Vermelha.

Estas notícias dividem-se entre: o que é que os famosos têm a dizer em relação ao isolamento, e o que é que os famosos estão a fazer durante o isolamento. Para percebermos melhor o quanto interessante está a vida social na quarentena, passo a comentar alguns dos títulos:

“Separados há 20 anos, Bruce Willis e Demi Moore juntos em quarentena”. Achei este título interessante, pelos vistos o Covid-19 está a trazer frutos positivos. Ou então não, é a hipocrisia humana a falar mais alto. Será necessária uma pandemia mundial para que as pessoas percebam que afinal ainda gostavam uma da outra depois de 20 anos divorciados? Não me perguntem, também gostaria de uma resposta para esta questão, mas não a tenho. Em todo o caso, bendito Corona para este casal, já sabemos com que cerveja festejarão a reconciliação quando tudo isto terminar!

Noutra manchete: “Justin Bieber mostra-se muito feliz na companhia da mulher”. Achei este título tão interessante, ironicamente, que me fez questionar até qual o ponto de partida de uma notícia: algo novo, que não acontece todos os dias, fora do comum e que merece ser noticiado. Não era suposto o cantor estar feliz na companhia da mulher? Ou então é algo tão estranho uma celebridade internacional ter um casamento feliz. De facto, estamos muito mais habituados a ler que celebridades internacionais vão divorciar-se devido a traições, violações ou até pior. Neste caso, é de facto uma notícia, um cantor feliz ao lado da mulher. Se estiveres a ler isto Justin, muitos parabéns, gosto imenso de pessoas felizes e espero que assim continuem!

No seguimento desta última, apresento-vos mais uma extremamente interessante: “Kaley Cuoco confessa que quarentena a ‘obrigou’ a morar com o marido”. Pelos vistos eu tinha razão no que referi acima: em Hollywood as coisas não funcionam normalmente, logo estes acontecimentos merecem ser noticiados. Realmente, não é hábito numa sociedade ocidental como a nossa um casal morar junto, e houve a necessidade de partilhar. “Estamos casados há um ano e meio, estamos juntos há mais de quatro anos e esta quarentena forçou-nos a finalmente morar juntos”. Mais uma coisa espetacular que veio juntamente com o Covid-19. Afinal, o vírus pode nem ser assim tão mau como nos fazem crer. “Tem sido ótimo para o nosso relacionamento. E concluímos que gostamos um do outro”, afirmou a atriz de ‘A Teoria do Big Bang’. Tal como para o Justin, desejo-vos as maiores felicidades.

Estava, de facto, a ficar muito contente com as notícias do meio social. Até agora, tem sido a única secção que nos tem trazido notícias positivas. Contudo, uma declaração feita pela atriz Roseanne Barr, de 67 anos, fez-me ficar triste: “Estão a tentar livrar-se da minha geração”, em conversa com o apresentador Norm Macdonald. Será isto verdade? Finalmente concordo com a estudante de medicina que tinha escrito num cartaz “Não matem os velhinhos”. Afinal, a estudante não estava a manifestar-se contra a Eutanásia, mas contra uma possível pandemia mundial, que nem se pensava poder existir na altura. Se isto for verdade, tenham cuidado, principalmente os idosos teimosos que insistem em sair de casa sem motivo. Roseanne, esperemos que esteja enganada e que seja, apenas, uma mera coincidência.

Cuidem-se porque, pior pandemia do que o vírus, é uma vida desinteressante!

Luís Duarte de Sousa

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