A história por trás de “O Abismo”

Eram cerca de 3h da manhã. Não conseguia dormir. Não conseguia e não queria. Tinha medo do que o meu subconsciente podia tramar. E torturasse mais do que o consciente já estava a fazer.

Se já andava a dormir à volta de 3 horas por noite há três meses, porque teria de dormir naquele dia? Não teria, nem conseguia. Mas estava exausto e só queria que parasse de doer.

Lembro-me perfeitamente desse mesmo dia, no final de maio. Tinha perdido o controle do meu corpo. Ele tremia e já tinha vomitado algumas vezes, mesmo sem ter conseguido comer quase nada.

Acho que apenas queria não sentir, não pensar nem ter de lidar com um amor falhado. Não sei lidar com o falhanço, não sei lidar com a falta de alguém na minha vida que, na altura, o que mais queria era amar, beijar e poder proteger.

Mas não pude, e não foi uma decisão minha. Não foi uma decisão que dependeu de mim e que, apesar de ter aprendido a lidar com isso, ainda hoje, cerca de sete meses depois, ainda custa, embora o meu orgulho não permita que o demonstre.

As relações humanas são complicadas por natureza, principalmente porque as decisões não dependem dos dois lados. Se um não estiver bem, o outro também não estará.

Sentia que precisava de uma pausa, de uns dias de descanso bem profundo para poder recuperar. Mas não os tinha. Sabia que no dia seguinte teria de estar alerta e extremamente concentrado desde as 6:30h às 21h, pelo menos.

Estava na última semana da licenciatura. Tinha aulas, trabalhos para entregar, frequências para fazer, um blogue para manter e ainda um estágio em que tinha de dar o meu melhor. E só me perguntava aonde conseguiria arranjar forças para, naquela altura, dar conta de tudo.

A escrita e as pessoas à minha volta foram a única forma de me conseguir libertar e aliviar um pouco deste pesadelo, embora não conseguisse na altura me expor tanto como estou a fazer agora. Nunca tinha passado por um sufoco e sensação de impotência tão grande ao ponto de não conseguir controlar o meu próprio corpo. E sabia que a dor que sentia ia prolongar-se no dia seguinte, na semana seguinte. E acabou por durar intensamente durante, pelo menos, nos cinco meses seguintes.

Não dormi nessa noite e mal dormi nas seguintes. Apenas conseguia dormitar e acordava sobressaltado com sonos pesados e surreais, que até me faziam duvidar da minha sanidade mental.

Resultado: se já me estava a sentir em baixo antes deste episódio, este dia foi a gota de água, ou então a onda que me engoliu, e uma semana depois tive um esgotamento. Ainda hoje sinto efeitos disso, mesmo a nível físico.

Acabei a licenciatura, fiquei ainda mais um mês a estagiar, até final de junho e achei que uma semana em Barcelona ia fazer-me bem, mas uma semana fora da minha zona de conforto só me deixou com mais vontade de voltar a casa.

E foi aí que tudo começou a voltar à normalidade, ao voltar a casa, para junto da minha família, em meados de julho, onde pude descansar, recuperar ao sol e com água salgada.

E quem diria que uma fase destas ia levar a uma curta-metragem de que tanto me orgulho? Afinal, há sempre algo de muito bonito e poético no sofrimento.

Quanto às partes que morreram, essas continuam mortas. A vivas, muito mais fortalecidas!

Podem consultar o texto original clicando aqui e ver a curta-metragem abaixo!

Tudo a correr bem por esse lado, e sejam felizes 🙂

One thought on “A história por trás de “O Abismo”

  1. Um final, por norma, é sempre encarado como algo negativo, mas a verdade é que nem sempre é assim, e muitas vezes ao final segue-se um início de algo melhor ou só diferente.
    Tenho muito orgulho ti e quero ver-te feliz novamente. Te amo filho.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s