Grande entrevista a Elena Rosca

Elena Luana Rosca nasceu em 1989 no litoral da Roménia, numa cidade chamada Constança. Veio para Portugal aos 14 anos e, dois anos depois, competia internacionalmente pela Seleção Nacional de Ginástica Aeróbica, representando Portugal no Mundo e trazendo inúmeros troféus para o País.

Porquê teres vindo para Portugal?

A minha família veio para cá por razões profissionais. Primeiro veio o meu pai para Portugal e, posteriormente, vim ter com ele, juntamente com o meu irmão e a minha mãe. Na altura tinha 14 anos.

Foi muito difícil a adaptação?

Foi, porque nesta idade já tinha amigos muito próximos. Comecei a minha carreira de ginasta ainda na Roménia e o meu grupo de amigos, desde que comecei a treinar até ter vindo para Portugal foi sempre o mesmo, pois treinávamos e estudávamos juntos. Estávamos numa turma especial, apenas de ginastas e passávamos imenso tempo uns com os outros diariamente. Por isso, os meus amigos desde sempre tinham sido aqueles, o que dificultou ainda mais a separação.

Começaste a tua carreira de ginasta na Ginástica Aeróbica?

Não, comecei pela ginástica artística, na Roménia. De repente, ao vir para Portugal, vi-me sem a minha família, sem os meus amigos, sem conhecer a língua e sem conhecer o país. Foi tudo muito repentino e muito novo. Não tinha nada que me prendesse a Portugal sem ser os meus pais e o meu irmão.

Como acabaste por ser atleta de Aeróbica?

Treinei Ginástica Artística na Roménia durante seis anos, e depois dois anos Aeróbica ainda lá. Já fazia parte da selecção nacional romena. Quando vim para Portugal pensei “a única coisa que me pode motivar era mesmo praticando ginástica”, que era o que mais gostava de fazer e sentia que fazia melhor. Procurei um clube, até fui à Federação de Ginástica de Portugal e foi aí que me encaminharam para um clube. Passado pouco tempo fiz parte da Selecção Nacional. Mas havia um grande problema, que era o facto de eu não ter nacionalidade Portuguesa. Eu ia aos campeonatos nacionais, muitas vezes ganhava, mas nunca ficava com o título de campeã nacional porque não tinha a nacionalidade portuguesa.

12244769_942568985790940_1560553290103619755_o

Chegaste a encontrar-te, depois, com a tua antiga selecção em provas internacionais?

Sim, recentemente estive duas semanas em Guimarães, no ‘Campeonato do Mundo’, com a minha antiga treinadora, e é muito engraçado porque mantenho uma óptima relação com toda a gente da equipa romena, como também com a equipa portuguesa. Sempre que é necessário tenho de fazer a ponte entre a equipa portuguesa e a equipa romena.

Foram quantos anos de ginasta ao todo?

Foram cerca de 20 anos.

Quais as provas que participaste que mais te marcaram?

Foram vários, e por diferentes razões. Uma das competições que mais me marcou, embora não tenha ganho, foram os ‘Jogos Mundiais’, que é o equivalente aos ‘Jogos Olímpicos’ nas disciplinas não olímpicas, em 2009. Para esta prova apenas são apurados os oito melhores do mundo e fui com o meu antigo par, o Tiago Faquinha, e finalizámos a participação em 6º lugar. O que foi óptimo, primeiro por termos sido seleccionados entre os oito melhores do mundo, e ainda termos ficado acima de dois pares. Alguns dos outros resultados que me marcaram penso que foi quando, numa Taça do Mundo, ficámos à frente dos atuais ‘Campeões do Mundo’, que foram também ‘Campeões da Europa’. Ficámos em primeiro lugar e foi uma sensação óptima saber que ganhámos os melhores da altura. Foram várias as provas e por diferentes motivos. Algumas nem foram pelos títulos, mas pelas participações. Estive em vários campeonatos do Mundo e vários campeonatos da Europa.

Como é que é, para ti, estar no pódio e ouvir o hino nacional e a bandeira portuguesa, sendo que és romena?

Neste momento já tenho nacionalidade portuguesa. Eu digo que já sou metade portuguesa e metade romena, pois tenho vinte e oito anos e vivi catorze anos na Roménia e catorze em Portugal. E sinto por igual, tanto quando oiço o hino da Roménia como o de Portugal. É mesmo muito bom, é um orgulho.

Qual foi o país que mais gostaste de visitar enquanto ginasta?

Adorei o Taiwan quando lá estive para os ‘Jogos Mundiais’. Foi das viagens que mais me marcaram porque, de facto, as pessoas são muito, muito simpáticas. Senti-me muito bem recebida e, apesar de não falarem inglês, tentam sempre ajudar em tudo. São pessoas mesmo muito acolhedoras e é uma cultura muito diferente.

No presente, qual é a tua actividade principal, depois de teres deixado a ginástica, em 2016?

Neste momento sou responsável pelo gabinete de comunicação na Federação de Ginástica de Portugal, há cerca de três anos e meio. Para mim, acaba por ser o melhor dos dois mundos, porque tirei comunicação e continuo ligada à área da ginástica. Gosto imenso daquilo que faço, é algo que gosto e me preenche muito. Mas é também muito cansativo porque os eventos são sempre aos fins-de-semana. Ou seja, trabalho durante a semana na Federação e, ao fim de semana, acabo por trabalhar em casa para fazer a cobertura dos eventos. Mas é algo que me satisfaz bastante porque acabo por ter as duas coisas que mais gosto numa só.

Porquê a escolha por comunicação?

Na verdade na altura estava completamente perdida. Pensei em tirar desporto, mas foi aquilo que fiz durante a minha vida toda a queria fugir um bocado. Queria ter uma segunda escolha. Tirei o curso de treinadora e de juiz, por isso se quisesse continuar ligada ao desporto poderia dar treinos. Sou uma pessoa bastante aberta e tenho facilidade em comunicar. Então acabei por optar por comunicação. Por ser uma área muito aberta e ter várias saídas.

Na altura o que ponderavas vir a ser?

Cheguei a considerar o jornalismo de moda, pois gosto muito desta área. Acabei por não fazer nada daquilo que era a minha ideia inicial, mas não fecho essa possibilidade. Até porque gosto de experimentar várias coisas. Infelizmente ainda não consegui fazer nada ligado à área da moda, principalmente por falta de tempo.

Chegaste a dar treinos?

Dei, enquanto fui ginasta, mas quis fugir um bocado para não ter a sensação de que, se um dia me cansasse do desporto, não teria uma segunda opção.

Se não tivesses sido ginasta, que modalidades gostarias de praticar?

Quando era muito nova jogava futebol com os meus amigos rapazes e com os amigos do meu irmão, e desenrascava-me muito bem. Ninguém diria que uma ginasta poderia desenrascar-se bem a jogar futebol, é muito diferente. Mas era uma das coisas que gostava. E também gostava muito de dança.

O desporto sempre esteve presente na tua vida?

Sim, desde os 6 anos. Dança também é uma coisa que gosto muito, tanto danças de salão como hip-hop. Mas gostava de experimentar as várias vertentes da dança, embora não o tenha feito oficialmente.

A Ginástica Aeróbica tem também uma vertente de dança?

Sim, a música está sempre presente. A coreografia é algo que é necessário sentir, que parte do interior do ginasta. E cada vez mais isso se vê. Ninguém consegue ensinar apenas uma corografia. Há coisas que acabamos por moldar e alterar à nossa maneira.

O que é necessário para ser um bom ginasta?

Além das muitas horas de treino, é muito importante ser persistente. As coisas não saem bem nem à primeira e às vezes nem à décima vez. É questão de querer muito aquilo, dedicar-se ao máximo e fazer tudo com muita paixão. Sem paixão nada sai da mesma maneira.

10403643_10204329008579109_1358355283770801467_n

O que é que te levou a deixar a carreira de ginasta, há dois anos?

Confesso que não foi de livre e espontânea vontade. Acabei por ser forçada a fazê-lo por falta de tempo. Gosto de dar 100% de mim em tudo, o que tanto pode ser bom como pode ser mau. Gosto de envolver-me com tudo aquilo que tenho. Quando comecei a trabalhar na Federação, sabia que ia ser um cargo que me ia tirar muito tempo. Tentei conciliar as duas coisas, e ainda consegui durante um ano.

Como foi a tua última participação enquanto ginasta?

A minha última participação foi o ‘Campeonato de Elvas’ e foi muito difícil, porque não tinha tempo para treinar. Se por um lado senti-me muito bem por ter conseguido participar, por outro sabia que não tinha treinado o suficiente e sentia-me mal por isso. Sabia que podia ter feito muito melhor, porque acabei de preparar a coreografia na noite antes de entrar em palco para competir. O resultado poderia ter sido pior, fiquei em 15º lugar em mais de cinquenta ginastas, mas fiquei triste comigo própria por saber que poderia ter feito muito melhor.

Sabias que ia ser a última prova?

Sabia, porque sentia que não era possível dar o meu melhor nas duas coisas ao mesmo tempo.

Como é que te sentiste nesse momento?

Senti-me pessimamente, confesso. Entrei em palco de lágrima no olho, sabendo que seria a última vez que ia fazer aquilo. Mas aproveitei aquele momento muito bem. Consegui sentir tudo aquilo que fiz, consegui pensar mais no que estava a sentir do que no que estava a fazer. Sabia que ao longo da minha carreira de ginasta tinha dado o melhor possível, e só quis aproveitar o momento, independentemente se corresse bem ou mal, pois seria a minha última prova.

Planos para o futuro próximo, tens?

Neste momento não tenho muitos planos, tenho o futuro em aberto. Gostava muito de fazer algo ligado à moda, porque sempre tive um gosto especial, desde sempre. Em criança não ia à rua sem vestir aquilo que queria. A era a área que mais tinha interesse, tanto no jornalismo como enquanto modelo fotográfico. Mas continua tudo em aberto. Enquanto ginasta os meus únicos objectivos eram estudar e treinar. Fechei outras portas para conseguir fazer isto mas neste momento está tudo em aberto.

11696028_10206271519100658_6251626942013505261_n

Luís Duarte Sousa

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s