O abismo

Sabem aquela sensação de estar mesmo prestes a cair, mas estar, ainda assim, seguro por uma pequena corda, que tanto pode ser a vossa salvação ou a morte?

Bem, é essa a sensação. Aquela de querer deixar-se ir mas, ao mesmo tempo, querer conseguir agarrar-se ao máximo. Pensar no quanto a vida pode ser bonita. O quanto o mundo pode ser bonito. Se é que existe realmente beleza neste mundo. Mas algo diz que devemos continuar a acreditar que sim. Algo chamado impulso vital. Este ser cruel que nos mantém às voltas e voltas e constantemente a chegar a um abismo.

Razões para estarmos bem? Todos temos. Mas há sempre algo que nos aflige. Que nos leva para baixo e faz-nos querer deixar-nos ir, num sono profundo sem fim. Seguir para um sítio sem retorno, um descanso prolongado, uma espécie de uma cama confortável que nos permite lá ficarmos o tempo que precisemos.

As pessoas mais próximas dizem sempre que tudo vai ficar bem. Que tudo está bem. E aparentemente tudo está, não está? Não estás a construir a vida que sonhaste? O que é que podes pedir mais? Se calhar, nada. Ou então tudo. Quero o tudo e o nada ao mesmo tempo. Sou feito de extremos. Numa hora quero o mundo, e noutra quero apenas a solidão, estar só em contacto comigo mesmo e ser apenas o ser que sou.

Há quem sinta um vazio. Eu sinto um sufoco. Algo está a crescer dentro de mim e não me deixa respirar, não me deixa viver bem nem me deixa ser feliz. Sinto que preciso de acabar com este parasita que vive dentro de mim. Mas infelizmente não é um parasita, é algo que faz parte do meu ser e que poderia já não existir. Aliás, deveria não existir. Às vezes sangro por dentro. E sangro cada vez com mais frequência e uma quantidade cada vez maior. Podem não acreditar, mas eu sinto, e este sangue preenche o esófago, o estômago e impede-me de comer, de respirar e faz-me sentir pesado e de luto por mim mesmo.

Há várias parte de mim que já morreram. Não sei se felizmente ou infelizmente. Mas sei que tento sempre fazer o luto de todas elas, renovar-me e seguir em frente. Afinal, “the show must go on”, penso para mim próprio.

E a verdade é que tem, não sei como mas tem. E sempre que passei por fases parecidas o show continuou. Nem eu próprio sei como consegui. Mas consegui reerguer-me. Não que as partes mortas tenham ressuscitado, mas adaptaram-se e conseguiram conviver com as outras. Até parar num novo abismo.

Tal como as crises económicas, a vida humana é feita por ciclos, e um ciclo tem de chegar a um abismo. É necessário cair e bater completamente no fundo para voltar a reerguer-se. Se calhar a melhor regra mesmo é a do “Laissez faire, laissez passer”.

E tudo voltará o normal. Eu sei que sim. Leio vezes sem conta um excerto mandado pela minha mãe há alguns anos de Caio Fernando Abreu:

“Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada ‘impulso vital’. Pois esse impulso não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, e te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como ‘estou contente outra vez’.

Estou ansioso pelo “contente outra vez”, mesmo sabendo que depois disso virá de novo um abismo, muito provavelmente pior do que o anterior.

Luís Duarte Sousa

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